Alexandra Loras

Lugar de mulher é na liderança

Publicado na Azul Magazine, edução de outubro de 2016.

Imagine um mundo em que as mulheres ocupam a imensa maioria dos cargos de liderança e espaços de poder nas empresas. Imagine que elas recebem salários 30% maiores do que os de seus colegas homens pelo mesmo trabalho. E que os homens têm de responder perguntas pessoais em entrevistas de emprego, como se pretendem ter filhos em breve, por exemplo. Nesse mundo, a grande maioria das referências e dos grandes personagens históricos são mulheres. As revolucionárias, historiadoras, filósofas, inventoras, escritoras e até Deus é representado como uma mulher. Na mídia, o homem é sempre representado como aquele que cuida da casa e dos filhos – ou como um objeto sexual – e as mulheres são vistas como bem sucedidas no trabalho. Se um homem é promovido, as colegas comentam que ele deve ter se envolvido sexualmente com a chefe para conquistar o novo cargo. E eles ouvem piadinhas e insinuações em reuniões de colegas e clientes mulheres. Não seria um mundo cruel? Pois esse é o mundo que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho. Para as mulheres negras a situação é ainda mais complexa, porque pesa sobre elas também o racismo e preconceito.  

Exercício semelhante foi proposto pela cineasta francesa Eléonore Pourriat no curta metragem “Majorité Opprimée” (“Maioria Oprimida”) para denunciar o machismo presente em nosso dia a dia. O filme retrata um mundo ao contrário, sexista e dominado por mulheres, em que os homens sofrem assédio, abusos e desrespeito. Claro que não é esse o mundo que queremos, mas serve como reflexão para enxergarmos o quanto nossa sociedade ainda é desigual.

As mulheres são minoria nos cargos de diretoria, ainda que sejam maioria da população e de  formadas nas universidades, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em um país onde 51,4% da população é de mulheres, é chocante que nas empresas brasileiras apenas 6% dos cargos em boards executivos sejam ocupados por elas. Isso porque elas têm cada vez mais boa formação, mas encontram muitas portas fechadas para ascender nas empresas.

Eu passei por isso quando entrei na Sciences Po, a mais importante escola de Ciências Políticas da França. Foi uma luta contra minha própria voz, que me dizia que eu não seria capaz, por ser mulher e negra, de conquistar aquele espaço. Mas a verdade é que cada um de nós é capaz, cada um de nós é cheio de talentos, cheio de potenciais enormes que precisam ser revelados. As mulheres são capazes de conquistas incríveis e nossa sociedade precisa dar chances a elas.

Para isso, precisamos mudar a narrativa dos desenhos animados e das novelas, quebrar os clichês e inserir imagens sobre o tipo de sociedade que queremos ver de verdade. Situações que mostram o pai levando as crianças na escola e a mãe tendo uma posição de destaque como, por exemplo, uma juíza no tribunal. Temos que quebrar a hiper sexualização da mulher e a inferioridade velada de que somos inferiores intelectualmente. As mulheres têm poder de compra e decisão sobre a maioria dos produtos que uma família consome, então é ótimo para as corporações que elas estejam representadas em suas equipes. Meu desejo é ver 52% de mulheres nos boards executivos das empresas para termos uma sociedade mais justa. Precisamos sair da formatação da sociedade e dar chances aos talentos de tantas mulheres que podem fazer a diferença nas empresas e nos espaços de decisão e poder.

Alexandra Baldeh Loras é mestrada em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora, empresária, consultora de empresas, autora e palestrante em raça, gênero e diversidade. Trabalha com líderes empresariais para criar um clima mais equilibrado nas organizações, onde a conscientização sobre diversidade de gênero e de raça é tão importante quanto a prosperidade do negócio. Ela escreve um blog sobre dignidade negra www.alexandraloras.com www.facebook.com/alexandrabloras e é ex-consulesa da França em São Paulo.

Alexandra Loras é ex-consulesa da França em SP, empresária, consultora de empresas e autora de livros. Referência em diversidade e empoderamento feminino.

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Cinco dicas para ser um aliado contra o preconceito

Uma das minhas referências é a atriz, comediante e vlogueira americana Franchesca Ramsey. Ela tem um ótimo canal no YouTube e apresenta o programa Decoded na MTV americana. Como o conteúdo dela é todo em inglês, decidi dividir com vocês um post inspirado em um dos vídeos dela, sobre como os brancos podem ser aliados na causa contra o racismo e também como todos nós podemos colaborar em causas que gostaríamos de apoiar.

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Imagine que um amigo seu está construindo uma casa e pede sua ajuda. Mas você nunca construiu uma casa antes, então é uma boa ideia colocar seu equipamento de proteção e ouvir as orientações do engenheiro responsável, para que ninguém se machuque, certo? Bem, a ideia é a mesma quando se fala em ser um aliado na luta pela igualdade para um grupo do qual você não faz parte. Sua ajuda é muito bem-vinda, mas você deve ouvir primeiro para saber o que fazer.

1- Reconheça seu privilégio

Privilégio não significa que a sua vida é fácil, que você recebeu tudo de mão beijada ou que você nunca teve que batalhar e trabalhar duro. É simplesmente a noção de que há certas coisas na vida que você nunca vai ter que passar ou se preocupar pelo simples fato de ser quem você é. Por exemplo, se você é heterossexual, nunca terá que se preocupar em ser alvo de discriminação por sua sexualidade. Então, para ajudar a lutar pelos direitos de outras pessoas, é importante entender que direitos você tem que outras pessoas não têm. Isso é privilégio.

2 – Esteja aberto a ouvir e aprender

Não é possível aprender se você não estiver disposto a ouvir. A internet e a mídias sociais são uma ótima fonte para isso. Há muitas pessoas compartilhando suas histórias no mundo todo e se conectando com pessoas com quem elas nunca teriam contato se não fosse pela internet. Aproveite os blogs, tweets, vídeos e artigos e informe-se sobre as questões importantes para as comunidades que você quer apoiar.

3 – Use sua voz, mas sem ofuscar as dos outros

O papel de um aliado é dar suporte. Use seu privilégio e sua voz para educar outras pessoas, mas tenha cuidado para fazer isso de forma que não ofusque os membros da comunidade que você está apoiando ou tome crédito por dizer coisas que eles já estão dizendo.

4 – Você vai cometer erros, reconheça quando isso acontecer

Ninguém é perfeito. Desconstruir preconceitos leva tempo e esforço. É muito provável que você cometa erros e escorregue. Mas não se preocupe, você sempre pode se recuperar e se levantar de novo. Apenas lembre-se que não é sobre a sua intenção, é sobre o impacto que você causou. Então se alguém apontar que você errou, ouça, peça desculpas, comprometa-se em mudar o seu comportamento e siga em frente.

5 – Não basta falar, é preciso agir

Esse é o ponto mais importante. Dizer que você é um aliado contra o preconceito não é suficiente, é preciso agir. Não esqueça de traduzir sua vontade de ajudar em atitudes no seu dia a dia.

Espero que seja um conteúdo interessante e útil. O vídeo original você pode acessar neste link: https://youtu.be/_dg86g-QlM0

 

Alexandra Loras é ex-consulesa da França em SP, empresária, consultora de empresas e autora de livros. Referência em diversidade e empoderamento feminino.

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O mundo real, só que ao contrário

Minha pergunta aos brancos é: você trocaria seu lugar para ser negro em nossa sociedade, com todas as consequências que ser negro ainda representa em 2016?

Publicado do Nexo Jornal em 02.ago.2016

Tente imaginar um mundo diferente. Nesse mundo, tudo que foi feito pelos negros é considerado inteligente, lindo e incrível e todas as referências históricas são com negros. Um mundo onde os grandes personagens da história são todos negros. Os revolucionários, os historiadores, filósofos, inventores, escritores e até Deus, o ser supremo, é representado como negro e, claro, Jesus Cristo também. Quando as crianças assistem televisão, nos desenhos animados, a maioria dos personagens são negros, assim como os príncipes e as princesas. Nas novelas, a mulher branca é sempre a faxineira, ou a amante do homem negro e rico. E a única coisa que sabemos sobre os brancos, são duas páginas nos livros didáticos que dizem que o branco foi escravizado. Como seria esse mundo? Não seria cruel ver sempre o homem branco como o criminoso, como o traficante de drogas? Não seria chocante? Pois esse é o mundo em que vivemos, só que ao contrário. Essas são as referências que temos, desde que nascemos até hoje.

Em minhas palestras, gosto de propor esse exercício de imaginação para estimular uma visão diferente sobre a questão do preconceito. É interessante perceber como a sociedade se acostumou a ser racista pelo simples fato de encarar como normal algo que, se fosse ao contrário, causaria estranhamento. Tive a oportunidade de traduzir essa reflexão em uma imagem, uma foto produzida para a Revista Vogue e acredito que, como dizem, uma imagem vale mais do que mil palavras. A fotografia representa um ambiente aristocrático, porém com negras representando pessoas da elite, enquanto as mulheres brancas estão uniformizadas como empregadas, sendo uma delas a princesa Paola de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira, que gentilmente aceitou meu convite para participar.

FOTO: TINKO CZETWERTYNSKI

FOTO PUBLICADA NA VOGUE BRASIL DE AGOSTO. NA FOTO ESTÃO: PAOLA DE ORLEANS E BRAGANÇA AO FUNDO E, DA ESQUERDA PARA DIREITA: KARINE AMANCIO, JOYCE RIBEIRO, ALEXANDRA LORAS, DANI ORNELLAS E SAMIRA CARVALHO

 

Vejo essa imagem como um convite a vestir a pele das pessoas negras. Como você enxerga essa foto? Causa algum estranhamento? O simples fato da imagem gerar polêmica mostra que não temos uma sociedade igualitária porque, se no mundo em que vivemos negros e brancos fossem tratados da mesma forma, uma inversão de papéis não incomodaria ninguém. Mas como estamos acostumados com essa sociedade que promove privilégios aos brancos, eles não se colocam no lugar dos negros. O nosso objetivo foi gerar uma reflexão sobre o tema, provocar o debate e gerar discussão. Então seja qual for a sua opinião sobre a imagem, o importante é que você pense sobre o assunto, converse sobre ele e reflita. Minha pergunta aos brancos é: você trocaria seu lugar para ser negro em nossa sociedade, com todas as consequências que ser a negro ainda representa em 2016?

ACREDITO QUE O RACISMO SERÁ VENCIDO PELOS ESFORÇOS CONJUNTOS ENTRE NEGROS E BRANCOS. ACREDITO NA CONCILIAÇÃO POR MEIO DA CONSCIENTIZAÇÃO.

Exercício semelhante foi proposto pela cineasta francesa Eléonore Pourriat no curta metragem “Majorité Opprimée” (“Maioria Oprimida”) para denunciar o machismo presente em nosso dia a dia. O filme retrata um mundo ao contrário, sexista e dominado por mulheres, em que os homens sofrem assédio, abusos e desrespeito.

Em ambos os casos, não se trata de defender esses mundos reversos como ideais. Tampouco a sociedade que desejo seria uma em que os brancos são oprimidos pelos negros. De forma alguma. ​Acredito que o racismo será vencido pelos esforços conjuntos entre negros e brancos. Acredito na conciliação por meio da conscientização. O branco de hoje não tem culpa pelas atrocidades que foram feitas no passado, mas somos todos responsáveis por solucionar as consequências traumáticas e reequilibrar nossa sociedade.

Em todas as minhas iniciativas contra o racismo, recebo inúmeras mensagens de apoio e também muitas críticas. Não sou a maior especialista no tema, porém procuro aproveitar o espaço que me foi dado pela mídia brasileira para trazer visibilidade sobre esse assunto. Desde que desenvolvi minha tese de mestrado sobre a invisibilidade do negro na televisão francesa, venho pesquisando sobre o racismo. Neste ano, já participei de mais de 50 eventos sobre diversidade, fui uma das palestrantes convidadas para o TEDx em Cannes, durante os eventos do mês da consciência negra em Harvard e idealizei o primeiro TEDxSãoPaulo protagonizado por mulheres negras, que aconteceu em julho no Hotel Unique.

Acredito que não existe receita certa nessa luta. Prefiro me mexer e incomodar do que ficar quieta, calada, sendo abusada pelo sistema. Prefiro tentar e errar do que ficar presa nessa realidade que me incomoda sem fazer nada para mudá-­la.

Alexandra Baldeh Loras é mestre em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora e palestrante em raça, gênero e diversidade. Ela escreve um blog sobre dignidade negra www.alexandraloras.com ​www.facebook.com/alexandrabloras e é consulesa da França em São Paulo.

Alexandra Loras é ex-consulesa da França em SP, empresária, consultora de empresas e autora de livros. Referência em diversidade e empoderamento feminino.

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Mariana Godoy entrevista: Alexandra Loras

O programa Mariana Godoy entrevista, apresentado pela jornalista Mariana Godoy, na Rede TV!, recebeu Alexandra Baldeh Loras ontem (6 de novembro) para uma entrevista ao vivo.

Abaixo, o programa Mariana Godoy entrevista do dia 6 de novembro na íntegra, com participação do governador do Paraná, Beto Richa no primeiro bloco. No segundo bloco, a partir dos 25 minutos de vídeo, a entrevista de Alexandra Loras, onde fala de sua trajetória de vida, de como sentiu o preconceito na pele e de como acha que podemos contornar essa situação:

Mariana Godoy recebe Beto Richa e Alexandra Loras – Íntegra

Redação: Thatiana Nunes

Thatiana Nunes | Redatora do Blog AlexandraLoras.com

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Jô Soares conversa com Alexandra Baldeh Loras

Alexandra Baldeh Loras foi entrevistada por Jô Soares na última segunda-feira, dia 02 de Novembro.

Alexandra Loras trouxe à tona um tema urgente e tão latente em nosso país: o racismo.

Vestida de branco, Alexandra levantou a questão das babás se vestirem de branco como se fosse um “dresscode” ou um uniforme para babás no Brasil, o que acaba por segregar e diferenciar a babá dos demais membros da família.

Em seguida, faz um paralelo citando o mundo como se tivesse sido formatado apenas com referências negras, os cientistas, inventores, filósofos, intelectuais e outros, onde até mesmo Deus fosse negro. Na TV, as personagens fossem negras, as princesas fossem negras e as únicas referências aos brancos, fossem bem superficiais e referentes à escravatura, apenas.

Com essa dinâmica, Alexandra mostra o outro lado da história e como, em nossa mente, somos formatados a aceitar que o bom é feito por brancos e o ruim, por negros, sempre atrelados a personagens sem escrúpulos, bandidagem, amantes, etc.

Mostrou ao público que, apesar de serem humilhantes, as cotas são a única forma de reequilibrar as oportunidades. Não se trata de uma questão fixa, mas uma questão passageira, uma transição.

Alexandra Loras mostra, ainda, que o que é mais importante hoje, é resgatar a identidade dos negros com referências positivas e importantes para a história do mundo, de forma que eles possam voltar a acreditar em si, em seus potenciais e buscarem meios e oportunidades de encontrarem seus talentos, de fazerem a diferença, ao invés de ingressarem na criminalidade.

Esse reforço vem, por exemplo, através do livro Gênios da Humanidade, escrito por Alexandra Loras em parceria o historiador Carlos Machado, que será lançado em fevereiro, falando de grandes figuras negras da História, como inventores, cientistas, escritores, intelectuais, filósofos e outros.

Para ver a entrevista completa de Alexandra Baldeh Loras concedida ao Jô Soares, clique neste link: http://bit.ly/1WHCSku

Redação: Thatiana Nunes

Thatiana Nunes | Redatora do Blog AlexandraLoras.com

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Merci outfit: Nude e seus tons!

Nesse post resolvemos mostrar uma cor que muitas vezes é universal para quem tem um tom de pele mais escuro ou bronzeado. O nude  é um tom rosado, mas de certa forma opaco. Não possui nenhum grande brilho, é uma mistura do tom de uma pele rosada com um leve pêssego.

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Nessa produção escolhemos um conjunto com uma saia alta e blusa top cropped, porém de forma discreta. Aconselho que mesmo em uma produção mais séria e “corportaiva” é necessário algo para dar aquele twist a mais e trazer todo o look para um humor chique e contemporâneo (nessa caso são os lindos detalhes colocados nos ombros). Poderia também certamente ser usado para uma festa ou grande jantar.

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Na ocasião esse look foi usado para uma palestra muito importante do TEDX (+) leia mais

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Merci: Amarelo, Yellow e Jaune!

O nome desse post está muito conectado com a cor mais dominante nessa combinação. O amarelo. A saia escolhida para arrematar o look possui uma linda modelagem, com cintura mais alta, amarelo quase mostarda e com tecido mais encorpado para o frio.

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O amarelo mais forte, ou seja mais pigmentado, é uma cor que pode ser usada por muitas pessoas, uma vez que seu tom mais vivo não deixa a pessoa apagada. Vale lembrar que as cores primárias (azul, vermelho e amarelo) geralmente ficam boas em muitas pessoas de diferentes etnias, peles e estilos. Merci!

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Casaco COS | Camisa Calvin Klein | Saia Nk Store | Óculos Prada | Sandália Hermès
Styling: Luiz Mazzilli
Fotos: Fernanda de Moraes Dantas

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