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Como as Semanas de Moda 2017 responderam à urgência por diversidade étnica na moda

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Com temas relacionados a diversidade e inclusão mais em pauta do que nunca no mundo da moda, chegou a hora de analisar como as fashion weeks estão (ou não) entrando nessa conversa. Mais do que mostrar mensagens empoderadoras estampadas nas camisetas “tendência”, queremos ver a representatividade étnica real nas passarelas.

Isso está acontecendo?

Bom, os apelos por mudanças nesse sentido acontecem há anos gerando pouco ou nenhum resultado real. A cultura negra é e sempre foi apropriada pela indústria da moda através da reprodução (raramente creditada) de incontáveis artigos de vestuário, acessórios, estilos, elementos culturais em geral.  O mesmo fascínio nunca vimos na hora de representar o homem e a mulher negra devidamente nas passarelas.

Mas os ventos indicam sinais de mudanças. Finalmente, com uma nova consciência coletiva aflorando, podemos começar a ter esperança?

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Alguns avanços

Nos 241 desfiles das fashion weeks de fevereiro e março em Nova York, Londres, Paris e Milão,  as capitais mundiais da moda,  27,9% dos modelos a se apresentarem eram de etnia não-branca, de acordo com o relatório do The Fashion Spot.  Um aumento de 2,5% em relação à temporada anterior.

No caso específico de Nova York, esta edição da Fashion Week ficou marcada pelo forte clima político-social do evento, tanto nas manifestações pessoais dos participantes, quanto nas próprias coleções. Considerando esse contexto, não é surpresa que NYC continue sendo o palco de maior diversidade étnica entre os 4 principais polos da moda: as 5 marcas com desfile mais diversificado desta edição do fashion month são americanas.

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A divulgação desse relatório do Fashion Spot desde 2015 vem ajudando muito o debate sobre inclusão na indústria da moda. É ótimo podermos comparar os dados de edições anteriores e entender quais regiões e marcas estão mais ou menos propensas a diversificar seus castings. E apesar do aumento de 2,5% na diversidade ser relativamente pequeno em relação aos desfiles da Primavera 2017, já é um avanço. O relatório inclusive destaca (+) leia mais

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Lugar de mulher é na liderança

Publicado na Azul Magazine, edução de outubro de 2016.

Imagine um mundo em que as mulheres ocupam a imensa maioria dos cargos de liderança e espaços de poder nas empresas. Imagine que elas recebem salários 30% maiores do que os de seus colegas homens pelo mesmo trabalho. E que os homens têm de responder perguntas pessoais em entrevistas de emprego, como se pretendem ter filhos em breve, por exemplo. Nesse mundo, a grande maioria das referências e dos grandes personagens históricos são mulheres. As revolucionárias, historiadoras, filósofas, inventoras, escritoras e até Deus é representado como uma mulher. Na mídia, o homem é sempre representado como aquele que cuida da casa e dos filhos – ou como um objeto sexual – e as mulheres são vistas como bem sucedidas no trabalho. Se um homem é promovido, as colegas comentam que ele deve ter se envolvido sexualmente com a chefe para conquistar o novo cargo. E eles ouvem piadinhas e insinuações em reuniões de colegas e clientes mulheres. Não seria um mundo cruel? Pois esse é o mundo que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho. Para as mulheres negras a situação é ainda mais complexa, porque pesa sobre elas também o racismo e preconceito.  

Exercício semelhante foi proposto pela cineasta francesa Eléonore Pourriat no curta metragem “Majorité Opprimée” (“Maioria Oprimida”) para denunciar o machismo presente em nosso dia a dia. O filme retrata um mundo ao contrário, sexista e dominado por mulheres, em que os homens sofrem assédio, abusos e desrespeito. Claro que não é esse o mundo que queremos, mas serve como reflexão para enxergarmos o quanto nossa sociedade ainda é desigual.

As mulheres são minoria nos cargos de diretoria, ainda que sejam maioria da população e de  formadas nas universidades, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Em um país onde 51,4% da população é de mulheres, é chocante que nas empresas brasileiras apenas 6% dos cargos em boards executivos sejam ocupados por elas. Isso porque elas têm cada vez mais boa formação, mas encontram muitas portas fechadas para ascender nas empresas.

Eu passei por isso quando entrei na Sciences Po, a mais importante escola de Ciências Políticas da França. Foi uma luta contra minha própria voz, que me dizia que eu não seria capaz, por ser mulher e negra, de conquistar aquele espaço. Mas a verdade é que cada um de nós é capaz, cada um de nós é cheio de talentos, cheio de potenciais enormes que precisam ser revelados. As mulheres são capazes de conquistas incríveis e nossa sociedade precisa dar chances a elas.

Para isso, precisamos mudar a narrativa dos desenhos animados e das novelas, quebrar os clichês e inserir imagens sobre o tipo de sociedade que queremos ver de verdade. Situações que mostram o pai levando as crianças na escola e a mãe tendo uma posição de destaque como, por exemplo, uma juíza no tribunal. Temos que quebrar a hiper sexualização da mulher e a inferioridade velada de que somos inferiores intelectualmente. As mulheres têm poder de compra e decisão sobre a maioria dos produtos que uma família consome, então é ótimo para as corporações que elas estejam representadas em suas equipes. Meu desejo é ver 52% de mulheres nos boards executivos das empresas para termos uma sociedade mais justa. Precisamos sair da formatação da sociedade e dar chances aos talentos de tantas mulheres que podem fazer a diferença nas empresas e nos espaços de decisão e poder.

Alexandra Baldeh Loras é mestrada em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora, empresária, consultora de empresas, autora e palestrante em raça, gênero e diversidade. Trabalha com líderes empresariais para criar um clima mais equilibrado nas organizações, onde a conscientização sobre diversidade de gênero e de raça é tão importante quanto a prosperidade do negócio. Ela escreve um blog sobre dignidade negra www.alexandraloras.com www.facebook.com/alexandrabloras e é ex-consulesa da França em São Paulo.

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Cinco dicas para ser um aliado contra o preconceito

Uma das minhas referências é a atriz, comediante e vlogueira americana Franchesca Ramsey. Ela tem um ótimo canal no YouTube e apresenta o programa Decoded na MTV americana. Como o conteúdo dela é todo em inglês, decidi dividir com vocês um post inspirado em um dos vídeos dela, sobre como os brancos podem ser aliados na causa contra o racismo e também como todos nós podemos colaborar em causas que gostaríamos de apoiar.

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Imagine que um amigo seu está construindo uma casa e pede sua ajuda. Mas você nunca construiu uma casa antes, então é uma boa ideia colocar seu equipamento de proteção e ouvir as orientações do engenheiro responsável, para que ninguém se machuque, certo? Bem, a ideia é a mesma quando se fala em ser um aliado na luta pela igualdade para um grupo do qual você não faz parte. Sua ajuda é muito bem-vinda, mas você deve ouvir primeiro para saber o que fazer.

1- Reconheça seu privilégio

Privilégio não significa que a sua vida é fácil, que você recebeu tudo de mão beijada ou que você nunca teve que batalhar e trabalhar duro. É simplesmente a noção de que há certas coisas na vida que você nunca vai ter que passar ou se preocupar pelo simples fato de ser quem você é. Por exemplo, se você é heterossexual, nunca terá que se preocupar em ser alvo de discriminação por sua sexualidade. Então, para ajudar a lutar pelos direitos de outras pessoas, é importante entender que direitos você tem que outras pessoas não têm. Isso é privilégio.

2 – Esteja aberto a ouvir e aprender

Não é possível aprender se você não estiver disposto a ouvir. A internet e a mídias sociais são uma ótima fonte para isso. Há muitas pessoas compartilhando suas histórias no mundo todo e se conectando com pessoas com quem elas nunca teriam contato se não fosse pela internet. Aproveite os blogs, tweets, vídeos e artigos e informe-se sobre as questões importantes para as comunidades que você quer apoiar.

3 – Use sua voz, mas sem ofuscar as dos outros

O papel de um aliado é dar suporte. Use seu privilégio e sua voz para educar outras pessoas, mas tenha cuidado para fazer isso de forma que não ofusque os membros da comunidade que você está apoiando ou tome crédito por dizer coisas que eles já estão dizendo.

4 – Você vai cometer erros, reconheça quando isso acontecer

Ninguém é perfeito. Desconstruir preconceitos leva tempo e esforço. É muito provável que você cometa erros e escorregue. Mas não se preocupe, você sempre pode se recuperar e se levantar de novo. Apenas lembre-se que não é sobre a sua intenção, é sobre o impacto que você causou. Então se alguém apontar que você errou, ouça, peça desculpas, comprometa-se em mudar o seu comportamento e siga em frente.

5 – Não basta falar, é preciso agir

Esse é o ponto mais importante. Dizer que você é um aliado contra o preconceito não é suficiente, é preciso agir. Não esqueça de traduzir sua vontade de ajudar em atitudes no seu dia a dia.

Espero que seja um conteúdo interessante e útil. O vídeo original você pode acessar neste link: https://youtu.be/_dg86g-QlM0

 

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O mundo real, só que ao contrário

Minha pergunta aos brancos é: você trocaria seu lugar para ser negro em nossa sociedade, com todas as consequências que ser negro ainda representa em 2016?

Publicado do Nexo Jornal em 02.ago.2016

Tente imaginar um mundo diferente. Nesse mundo, tudo que foi feito pelos negros é considerado inteligente, lindo e incrível e todas as referências históricas são com negros. Um mundo onde os grandes personagens da história são todos negros. Os revolucionários, os historiadores, filósofos, inventores, escritores e até Deus, o ser supremo, é representado como negro e, claro, Jesus Cristo também. Quando as crianças assistem televisão, nos desenhos animados, a maioria dos personagens são negros, assim como os príncipes e as princesas. Nas novelas, a mulher branca é sempre a faxineira, ou a amante do homem negro e rico. E a única coisa que sabemos sobre os brancos, são duas páginas nos livros didáticos que dizem que o branco foi escravizado. Como seria esse mundo? Não seria cruel ver sempre o homem branco como o criminoso, como o traficante de drogas? Não seria chocante? Pois esse é o mundo em que vivemos, só que ao contrário. Essas são as referências que temos, desde que nascemos até hoje.

Em minhas palestras, gosto de propor esse exercício de imaginação para estimular uma visão diferente sobre a questão do preconceito. É interessante perceber como a sociedade se acostumou a ser racista pelo simples fato de encarar como normal algo que, se fosse ao contrário, causaria estranhamento. Tive a oportunidade de traduzir essa reflexão em uma imagem, uma foto produzida para a Revista Vogue e acredito que, como dizem, uma imagem vale mais do que mil palavras. A fotografia representa um ambiente aristocrático, porém com negras representando pessoas da elite, enquanto as mulheres brancas estão uniformizadas como empregadas, sendo uma delas a princesa Paola de Orleans e Bragança, descendente da família real brasileira, que gentilmente aceitou meu convite para participar.

FOTO: TINKO CZETWERTYNSKI

FOTO PUBLICADA NA VOGUE BRASIL DE AGOSTO. NA FOTO ESTÃO: PAOLA DE ORLEANS E BRAGANÇA AO FUNDO E, DA ESQUERDA PARA DIREITA: KARINE AMANCIO, JOYCE RIBEIRO, ALEXANDRA LORAS, DANI ORNELLAS E SAMIRA CARVALHO

 

Vejo essa imagem como um convite a vestir a pele das pessoas negras. Como você enxerga essa foto? Causa algum estranhamento? O simples fato da imagem gerar polêmica mostra que não temos uma sociedade igualitária porque, se no mundo em que vivemos negros e brancos fossem tratados da mesma forma, uma inversão de papéis não incomodaria ninguém. Mas como estamos acostumados com essa sociedade que promove privilégios aos brancos, eles não se colocam no lugar dos negros. O nosso objetivo foi gerar uma reflexão sobre o tema, provocar o debate e gerar discussão. Então seja qual for a sua opinião sobre a imagem, o importante é que você pense sobre o assunto, converse sobre ele e reflita. Minha pergunta aos brancos é: você trocaria seu lugar para ser negro em nossa sociedade, com todas as consequências que ser a negro ainda representa em 2016?

ACREDITO QUE O RACISMO SERÁ VENCIDO PELOS ESFORÇOS CONJUNTOS ENTRE NEGROS E BRANCOS. ACREDITO NA CONCILIAÇÃO POR MEIO DA CONSCIENTIZAÇÃO.

Exercício semelhante foi proposto pela cineasta francesa Eléonore Pourriat no curta metragem “Majorité Opprimée” (“Maioria Oprimida”) para denunciar o machismo presente em nosso dia a dia. O filme retrata um mundo ao contrário, sexista e dominado por mulheres, em que os homens sofrem assédio, abusos e desrespeito.

Em ambos os casos, não se trata de defender esses mundos reversos como ideais. Tampouco a sociedade que desejo seria uma em que os brancos são oprimidos pelos negros. De forma alguma. ​Acredito que o racismo será vencido pelos esforços conjuntos entre negros e brancos. Acredito na conciliação por meio da conscientização. O branco de hoje não tem culpa pelas atrocidades que foram feitas no passado, mas somos todos responsáveis por solucionar as consequências traumáticas e reequilibrar nossa sociedade.

Em todas as minhas iniciativas contra o racismo, recebo inúmeras mensagens de apoio e também muitas críticas. Não sou a maior especialista no tema, porém procuro aproveitar o espaço que me foi dado pela mídia brasileira para trazer visibilidade sobre esse assunto. Desde que desenvolvi minha tese de mestrado sobre a invisibilidade do negro na televisão francesa, venho pesquisando sobre o racismo. Neste ano, já participei de mais de 50 eventos sobre diversidade, fui uma das palestrantes convidadas para o TEDx em Cannes, durante os eventos do mês da consciência negra em Harvard e idealizei o primeiro TEDxSãoPaulo protagonizado por mulheres negras, que aconteceu em julho no Hotel Unique.

Acredito que não existe receita certa nessa luta. Prefiro me mexer e incomodar do que ficar quieta, calada, sendo abusada pelo sistema. Prefiro tentar e errar do que ficar presa nessa realidade que me incomoda sem fazer nada para mudá-­la.

Alexandra Baldeh Loras é mestre em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora e palestrante em raça, gênero e diversidade. Ela escreve um blog sobre dignidade negra www.alexandraloras.com ​www.facebook.com/alexandrabloras e é consulesa da França em São Paulo.

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MULHERES QUE INSPIRAM, POR ALEXANDRA LORAS

 Publicado no site RG-UOL em 08.08.16

Tenho acompanhado com muito orgulho histórias de mulheres incríveis com grandes conquistas, como a estudante Lorrayne Isidoro, que representou o Brasil na Olimpíada Internacional de Neurociências na Dinamarca. Com apenas 17 anos, moradora de uma favela no Rio de Janeiro, sempre estudou em escola pública, aprendeu sozinha a falar inglês e francês e precisou criar uma campanha de financiamento coletivo para custear a sua viagem para a Dinamarca, depois de vencer a IV Olimpíada Brasileira de Neurociências, em São Paulo.Outra linda história que conheci recentemente é a deAriana Reis, uma mulher negra de origem humilde que se formou médica com muita luta. Em seu convite de formatura, escreveu a seguinte frase: “Sou mulher, sou negra, sou da favela e hoje sou médica.”

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Essas mulheres são para mim uma grande inspiração, porque venceram a falta de privilégios, a desigualdade e a voz interior que diz que não somos dignos ou capazes, e conquistaram seus espaços. Sei que elas representam exceções em um mundo onde a falta de oportunidades favorece alguns talentos, enquanto ofusca outros. Isso é particularmente evidente no Brasil, um país onde a desigualdade social e o preconceito são tão grandes.

Mesmo não existindo um apartheid oficial no país, há ambientes onde o negro não vai. Fomos condicionados a não se autorizar a fazer certas coisas. Nos shoppings de luxo, por exemplo, não há uma placa dizendo “só para brancos” mas, mesmo assim, vê-se poucas pessoas negras nesses espaços. Há algum tempo a Google me convidou para uma palestra, ocasião na qual me informaram que queriam contratar mais negros. Eles anunciaram as vagas em uma das universidades com mais alunos negros de São Paulo, porém não receberam nenhum currículo. Por quê? Porque o negro tem a autoestima tão baixa que não acredita que possa se candidatar para a Google. Esta é nossa grande enfermidade.

Desde muito cedo, percebi que teria que me esforçar mais por ser negra. Quando entrei na faculdade, na Sciences Po, foi uma luta contra minha própria voz, que me falava, “não, Alexandra, você não pode alcançar esse nível”. Eu tentava dominar essa voz e sabia que poderia vencê-la. Mas isso me fez perceber o quanto a sociedade tinha me marcado como mulher e negra. Então decidi ir lá e empurrar as portas e elas se abriram. Eu tinha muitos limites que me falavam: “Ah, mas você não conhece ninguém lá, você não pode, você não é capaz…” Mas a verdade é que cada um de nós é capaz, cada um de nós é cheio de talentos, cheio de potenciais enormes que precisam ser revelados. Quantos Mozarts, por exemplo, nunca foram apresentados a um piano?

Acredito que a solução ideal é termos uma sociedade mais justa e com iguais oportunidades para todos. Mas enquanto lutamos por isso, como vencer essa voz interior e conquistar os espaços que queremos, como fizeram Lorrayne e Ariana? Gosto muito de um conselho que recebi de uma amiga há 15 anos. Ela me levou a uma festa da elite e eu estava muito envergonhada, não sabia me portar, queria desaparecer, sumir daquele lugar. Ela, que também era de origem humilde e muçulmana, circulava como se conhecesse a todos, e todos a cumprimentavam e conversavam com ela. Perguntei: “como você faz isso?” E ela me respondeu: “Você tem que se sentir dona do lugar. Não com arrogância, mas da mesma forma como você receberia seus amigos em sua casa: acolhedora, simpática e feliz em ver essas pessoas que tomaram de seu tempo precioso para vir lhe visitar”.

Ela tinha razão. Você precisa encontrar o pensamento que vai te empoderar para conquistar qualquer espaço. Pense que você é a dona do lugar, em vez de achar que você não é legítima de estar ali. Por que uma pessoa de uma família privilegiada seria mais legítima nos espaços de poder do que uma pessoa de origem humilde que não teve os mesmos privilégios? Acho que esta foi a maior lição que aprendi.

*Alexandra Baldeh Loras é mestranda em Gestão de Mídia pela Sciences Po, influenciadora e palestrante em raça, gênero e diversidade. Ela escreve um blog sobre dignidade negra e é consulesa da França em São Paulo.

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O trabalho doméstico e a perpetuação da escravidão

Recentemente, uma imagem bastante emblemática que circulou nas redes sociais me fez refletir sobre a importância de se discutir as relações sociais no Brasil. Na foto, que você deve ter visto por aí, uma babá negra, vestida com uniforme branco, empurra o carrinho dos filhos de um casal branco vestido de verde e amarelo, que caminha à sua frente com um cachorrinho.

É claro que não há nada de vergonhoso no trabalho doméstico em si, muitas mulheres ganham assim a sua vida dignamente. Porém é inegável que no Brasil a situação do emprego doméstico ainda arrasta uma relação que atualiza e perpetua o passado escravagista. A mesma imagem seria impensável na França. Lá, assim como nos Estados Unidos, contratar uma babá é um serviço caro, prestado por pessoas qualificadas, muitas vezes com diploma universitário. Lá, uma babá custa por volta de R$ 7 mil, por isso é muito raro que uma família tenha uma babá fixa. Inclusive é comum que duas a quatro famílias dividam uma mesma babá a fim de repartir os custos, a chamada la garde partagée.

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No Brasil, uma empregada doméstica muitas vezes trabalha por um salário mínimo, deixando seus filhos sozinhos após a escola para cuidar dos filhos dos patrões. Até 1972 não havia nenhuma lei que as protegesse e apenas em 2013 elas passaram a ter os mesmos direitos trabalhistas já existentes no país. Porém a lei não se aplica ao grande número de diaristas, ainda sem direitos. O trabalho doméstico é geralmente ocupado por mulheres negras, que representam 52,6% das domésticas na região metropolitana de São Paulo, segundo dados do Dieese. Essa porcentagem é bem maior do que a de mulheres negras no mercado de trabalho em geral, 38%. Uma herança da escravidão, já que ao serem libertadas, elas permaneceram nas casas grandes como cozinheiras, faxineiras, lavadeiras e babás.

Esse é um ciclo difícil de ser quebrado. Muitas mulheres são filhas e netas de empregadas domésticas com baixa  escolaridade e encontram diversas barreiras na tentativa de obter uma formação que lhes permita melhores condições de trabalho. A mídia colabora retratando as negras sempre como as empregadas, dificultando que elas se enxerguem em outros papéis na sociedade. Por isso devemos questionar a afirmação comum de que “ela é livre para pedir demissão a hora que quiser, caso esteja insatisfeita”. Será que elas são realmente livres? Ou continuam apenas sendo escravizadas de uma maneira moderna?

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O filme “Que Horas Ela Volta” elevou esse debate de forma muito interessante. Assistindo ao filme, me vi nos três papéis, pelos quais passei em diferentes fases da minha vida. Pude me enxergar na babá, porque fui babá na Inglaterra, na Alemanha e nos Estados Unidos; na jovem em ascensão social, porque passei por essa trajetória ao ingressar na Sciences Po, um das mais respeitadas universidade de ciências políticas do mundo; e também no papel da patroa, que ocupo hoje como consulesa, administrando uma casa com três empregadas domésticas. Posso dizer que sim, é muito confortável contar com essa ajuda, mas é preciso dar dignidade econômica a essas mulheres e, sobretudo, não enxergá-las com inferioridade. Conheço pessoas que dizem, por exemplo, que “eu deixo a minha empregada comer a mesma coisa que eu da geladeira”, sem sequer se dar conta do quão chocante é essa frase.

É um problema complexo e de difícil solução, mas o que nós podemos fazer para mudar esta realidade? Acredito que enxergar que esse conforto é parte de um sistema que perpetua um tipo de escravidão moderna é um importante primeiro passo.

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Tecidos e muitas estampas!

Acho incrível quando vejo um editorial que consegue transmitir imagens tão impactantes. É o caso desse trabalho da famosa revista Architectural Digest Russia. Vale dizer qua a revista fala sobre estilo de vida e decoração e é publicada em grande parte do mundo com edições como: América, França etc. Nesse trabalho o objetivo da revista era mostrar uma mistura de tecidos de forma cool e inovadora

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Acho bacana perceber que nesse caso a mulher consegue dar uma força aos tecidos e ao mesmo tempo evocar um pouco o humor da cultura africana e suas estampas. Espero que gostem dessas imagens, pois refletem o traço de uma forte mulher e ao mesmo tempo natural e linda. Merci!

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Fotos: Copyright Architectural Digest Russia

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Mariana Godoy entrevista: Alexandra Loras

O programa Mariana Godoy entrevista, apresentado pela jornalista Mariana Godoy, na Rede TV!, recebeu Alexandra Baldeh Loras ontem (6 de novembro) para uma entrevista ao vivo.

Abaixo, o programa Mariana Godoy entrevista do dia 6 de novembro na íntegra, com participação do governador do Paraná, Beto Richa no primeiro bloco. No segundo bloco, a partir dos 25 minutos de vídeo, a entrevista de Alexandra Loras, onde fala de sua trajetória de vida, de como sentiu o preconceito na pele e de como acha que podemos contornar essa situação:

Mariana Godoy recebe Beto Richa e Alexandra Loras – Íntegra

Redação: Thatiana Nunes

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